"No dia 17 de Dezembro de 2003 morreu a minha avó. Morreu na minha casa, mais precisamente na minha cama. Tinha feito 81 anos no dia 12 de Setembro. Etelvina era o seu nome.
Toda a vida foi uma mulher de garra, de força, uma “trabalhadeira”. Trabalhou numa praça, vendia fruta e legumes, levantava-se as cinco da manhã para chegar ao Campo Grande a tempo de comprar a melhor fruta, no início nem carro tinha, carregava caixas pesadas às costas, passava o dia todo em pé, não sabia ler nem escrever, mas sabia fazer contas como ninguém.
É difícil ver morrer alguém que gostamos, é muito difícil! Mais difícil é ver alguém definhar-se aos poucos e não podermos fazer nada.
Quando se deu o primeiro AVC, em Setembro, a minha avó foi tratada no hospital, passado um mês teve alta e exceptuando o facto de ter ficado com o lado esquerdo bastante preso, ela estava relativamente bem, pelo menos as suas capacidades mentais não tinham sido afectadas. Fez fisioterapia e tudo tentamos para que o episódio não se repetisse, carinho e força de todos, comprimidos e mais comprimidos, apetrechos para auxiliar a sua condução, mobilidade e higiene pessoal, permitindo o mínimo de autonomia por parte da minha avó. Até porque ela fazia questão disso.
Mas um segundo AVC bateu à sua porta. Novamente se correu para o Hospital Amadora Sintra. Os movimentos mais presos, mas ela ainda estava consciente. Horas intermináveis para ser atendida, à espera deitada numa cama no corredor do Hospital.
Começam os exames e as análises, a isto e mais aquilo, passa a primeira noite no corredor do hospital.
No dia seguinte, estava menos consciente, mais confusa, sem noção dos dias e das noites, das pessoas, no corredor do hospital, já que as enfermarias estavam cheias. Encontrava-se amarrada porque tentara tirar o soro, gritava com dores e que se queria ir embora.
No quarto dia, (minha avó continuava no corredor do hospital), perguntaram-nos se queríamos coloca-la numa clinica para este género de casos… terminais. Mas nenhum de nós aceitava que o caso da nossa avó fosse irreversível.
No dia seguinte, por volta das 19h a minha avó teve alta, procurámos um médico, que nos explicou que o AVC foi-se desenrolando ao longo dos dias em que ela esteve internada, e por isso ela foi piorando de dia para dia, mas que actualmente o seu estado era estacionário e que ela podia viver vários anos assim, (acamada, com o olhar vazio e longínquo, mas viva), e mandaram-na para casa.
Quando chegou a minha casa, pensava que tinha chegado à Terra onde nascera, Mangualde. Além de se queixar, em plenos pulmões, com dores, chamava pela sua mãe. Quando fugazmente percebia que estava em Lisboa, chamava pela minha mãe, mas depressa se esquecia.
Não me reconheceu. Sempre que a tentávamos ajudar, ela sentia-se impotente e gritava mais.
As duas e meia da manha foi a hora em que a casa finalmente acalmou.
Passamos o resto da noite a vigia-la: as 4h da manhã, às 5h, às seis, o seu sono era agitado e continuava, mesmo que baixinho, a gemer. As sete da manha, quando a fomos novamente, já estava morta, fria. Morrera no sono.
Revolta-me a maneira como foi tratada no hospital, já uma pessoa não pode estar doente e muito menos morrer em paz. Neste país se não se possuir dinheiro para se ir para clinicas privadas, não podemos usufruir de condições condignas para nos tratarmos!?
Pode ter sido a doença que a matou, mas de certeza que as condições que ela teve neste hospital, não foram as melhores para permitir a sua recuperação.
À minha avó deram uma cama, mas muitos eram os doentes que tiveram que esperar naqueles mesmos corredores e nem maca tinham.
Estas palavras, não são só pela minha avó, mas também por todas as pessoas que necessitam de utilizar este e outros hospitais. Pode ser que algum dos seus responsáveis leia estas palavras e tenha vergonha na cara.
Para quando a construção de outros hospitais (não particulares) para dar o mínimo de condições às pessoas quando estão doentes? Para quando?
Mas manda o governo que sejamos positivos e que se encha os olhos e ouvidos com rock e futebol, ou talvez seja pão e circo?"
Agora, se ainda tivermos que pagar uma taxa de 5 euros para ficarmos instalados nos corredores, vai ser lindo!!!
Por esta situação, culpo em igual parte os Hospitais e o Governo. Este último, que só pensa no dinheiro que poupa se fechar o que não lhe interessa, porque pode usufruir de clinicas privadas, luxo a que a maioria não se dá.